Paisagem criada há pouco mais de 150 anos, o montado faz, hoje, parte da identidade do Alentejo e Ribatejo, marcando profundamente a cultura, os ciclos de trabalho e a economia local com a indústria da cortiça. Agora, a região quer trazer turistas a conhecer um ecossistema que tem em Portugal a maior mancha territorial do mundo.
A idade curva-lhe os ombros, arrasta-lhe os pés, deixa-lhe a voz num trémulo murmúrio. Mas basta que lhe ponham a enxó nas mãos e António Matias vira um homem novo. Sobre uma bancada improvisada, crava os dedos nodosos num pedaço de ramo de sobreiro, ainda com líquenes a decorar a casca. Na mão oposta, a enxó lança-se num gesto que conhece de cor. Em três ou quatro golpes certeiros e vigorosos, a cortiça é tirada num ápice.
António, hoje com 84 anos, sabe que veio apenas fazer uma pequena demonstração de como se tirava cortiça à falca, mas é com brio que o corpo enxuto se faz ao trabalho. Mais um pedaço de ramo, e outro e outro. O chão vai-se cobrindo de madeira nua e placas de cortiça. “Isto é um trabalho muito arriscado, porque a enxó trabalha ao pé das mãos.” Lembra que a lâmina tem de ir bem afiada, senão “aqui o bracinho é que paga”, aponta.
Foi aqui, numa pequena empresa de podas e abate de árvores em Santana do Mato, povoação do concelho de Coruche, o município com a maior área de sobreiro do país, que António “arrumou” a vida profissional há dois anos, depois de um AVC. Se pudesse ainda cá andava, lamenta. “Estava a trabalhar, a espairecer, convivia com os amigos.” Quando parou, no entanto, a enxó que traz hoje já era praticamente uma memória. Actualmente, quase tudo é feito com recurso a máquinas, como aquelas que rosnam em nosso redor por entre os amontoados de troncos e ramos, cortados em pedaços menores com motosserra e levados para descortiçar numa espécie de guilhotina eléctrica.
“Já há máquinas para fazer tudo. Antes, a máquina era o homem”, compara. Tinha seis anos quando começou a ajudar o pai a guardar varas de porcos pelo montado. “Mantínhamos ao pasto toda a noite. Íamos a rabo deles pelas cumeadas para comerem as bolotas”, recorda. Numa região profundamente agrícola, António passou a vida no campo, entre o montado e as lezírias. Chegou a “cavar terra para arroz” descalço, “a cobrar juro com os pés”. Foi ganhão no tempo das juntas de bois. Semeou a lanço centeio, cevada, milho. “Íamos para as lezírias e fazíamos os Invernos todos sem vir a casa.” Só voltavam quando era tempo de semear as batatas, conta. “Era muito diferente, difícil.”
Aos 14 anos, António já ganhava “o preço dos homens”. Com 15 ou 16, começou também na cortiça, num ciclo de trabalhos agrícolas governado pelas estações. No caso da casca do sobreiro, é nos meses de Verão que se despem os troncos da cortiça nobre. No Inverno, trata-se dos ramos podados ou das árvores identificadas para abate – espécie protegida pela lei portuguesa, é necessário aprovação do ICNF para arrancar um sobreiro, sendo o tronco marcado com uma cinta branca. Da falca, sai cortiça para a criação de aglomerados para isolamento, por exemplo (nunca para rolhas), e madeira para lenha ou carvão.
Paisagem cultural
De tão identitária que é hoje a paisagem do montado no Alentejo e no Ribatejo, custa a crer que este seja um cenário com pouco mais de 150 anos. Por isso, é pela história que Carlos Abreu, engenheiro florestal e técnico do Observatório do Sobreiro e da Cortiça, em Coruche, gosta de começar cada visita. A utilização de cortiça para a criação de uma infinidade de objectos do quotidiano recua milénios, mas é com a evolução da indústria do vinho engarrafado, e da produção de rolhas, que a área de montado começa a expandir-se.
Até finais do século XIX, a região do Algarve era a principal fornecedora de cortiça para rolhas. No Alentejo e Ribatejo, das árvores que nasciam espontaneamente tirava-se para a criação de cortiços para a apicultura, ou para fazer taipais na construção de habitações, pouco mais. “Só que, entretanto, os algarvios já não tinham cortiça suficiente para satisfazer as necessidades dos ingleses, então começaram a vir um bocadinho mais para cima à procura de proprietários que a tivessem para vender”, conta Carlos. Percebendo que havia interesse, e que era uma matéria-prima que “até se pagava bem”, muitos decidiram “começar a cortar outras espécies para plantar sobreiros” nas suas herdades, alterando “um bocadinho a paisagem” da região ao longo das décadas seguintes.
No Casal de Gavião, no concelho vizinho da Chamusca, Maria da Graça Saraiva há-de recordar como toda aquela zona pertenceu à Casa do Infantado. “Eram matas, zonas de caça no tempo dos reis”, conta. “Depois, com a Revolução Liberal, isto foi vendido e criou-se aqui uma grande propriedade.” É por isso que, quando se fala de montado, descreve-se uma paisagem cultural, criada e gerida pelo homem. Pode ser povoada de azinheiras, mas o projecto que nos traz à região concentra-se no Montado de Sobro e Cortiça, uma iniciativa criada no âmbito do programa de apoio comunitário PROVERE, liderada pela autarquia de Coruche, e que une os 27 municípios do Alentejo e Ribatejo onde a área de montado representa, pelo menos, 15% do território.
Criado em 2009, tem como pilares o campo da investigação e inovação (no Observatório do Sobreiro e da Cortiça, inaugurado naquele ano na zona industrial do Monte da Barca, onde se concentram as principais indústrias de transformação de cortiça de Coruche, podem ver-se algumas exposições que resultam de workshops com universidades, ou materiais em desenvolvimento, como um equipamento para recolher crude no mar ou uma mistura de betão e cortiça que permite aligeirar estruturas), e as áreas de marketing territorial e turismo.
Neste âmbito, foi lançado no final do ano passado o livro Montado de Sobro e Cortiça – Um território a descobrir, com algumas das principais atracções turísticas de cada concelho integrado na rede, assim como um passaporte, que pode ser carimbado à passagem por cada município, sobretudo nos postos de turismo, onde é possível ainda obter informações “sobre o que se pode fazer e visitar, onde comer, ou que […]






















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