Há quem diga que nesta equação “a restauração é tudo”. E essa perdeu-se na crise pandémica. Mas nem tudo foram más notícias no comércio de vinhos. A Fugas foi sentir o pulso a 2021 e anotou algumas das principais alterações aos padrões de consumo.
Há quem se assuste com os prejuízos — e os que se entusiasmam com os lucros assustadores. Há quem tenha fechado as portas e quem as tenha escancarado. Uns ficaram pelo caminho da pandemia, uns vão sobrevivendo e outros andam eufóricos com as vendas de vinho que em muitos casos já são superiores aos números do extraordinário 2019. Cresceram os grandes (distribuidores e marcas), encolhem-se e mingam os nomes que os consumidores não reconhecem. Há os grandes vencedores e um grande perdedor identificado a vermelho: a restauração, o elo mais fraco desta grande equação.
A primeira verdade é que Portugal se encontra em contraciclo com o mundo, pelo terceiro ano consecutivo com uma produção de vinho abaixo da média devido à geada de Primavera e às condições climáticas desfavoráveis, que afectaram severamente algumas das principais culturas. Segundo a OIV, Organização Internacional da Vinha e do Vinho, Portugal é (juntamente com Alemanha, Roménia e Hungria) um dos raros países produtores de vinho que registaram safras superiores a 2020. “Crescemos”, resume a ACIBEV, Associação de Vinhos e Espirituosas de Portugal, referindo-se às quotas de exportação. Assim, globalmente o ano de 2020 “acabou por não ser um ano mau” em que “os grandes se aguentaram bem”. E em 2021, apesar de mais “complicado” devido às dificuldades inerentes aos factores de produção (transporte e logística), as empresas acabaram por “vender e exportar bem”, principalmente “as marcas fortes e consolidadas”.
“Sofreram mais as marcas novas e de nicho muito dependentes da restauração. Este ano, mesmo que o volume seja bom, o resultado económico “vai ser muito mais complicado”. E com “um dado adicional”, anota Jorge Monteiro, presidente da direcção da ACIBEV, associação empresarial criada em 1975 e que representa uma parte significativa do volume de negócios do sector: “Temos informações de que até à Primavera as encomendas vão chegar tarde ao destino. Sabemos que há pouca fluidez na circulação dos contentores. E há zonas do planeta em que as listas de espera estão a aumentar. Para além disso, estamos a pagar mais pelos transportes, pela energia eléctrica, pela água e pelos produtos secos (cartão e vidro) e por alguma matéria-prima.”
No mercado doméstico, a grande referência é uma queda “muito grande” na restauração, que abalou todo o sistema. É justo falar-se de uma “ligeira melhoria” nos meses de 2021, mas ainda assim insignificante. “Os ganhos na distribuição que andarão nos 10% não compensam nem de perto nem de longe a quebra na restauração. De maneira nenhuma”, vinca Jorge Monteiro, apontando para “distorções muito grandes” nos actuais padrões de consumo.
“A restauração é tudo”
“O consumidor descobriu que pode comprar vinho melhor a menor preço.” Daí que se acentue o crescimento das grandes marcas. Ao invés, tendem a desaparecer as marcas que o consumidor não conhece ou que conhece menos bem e que nos eram servidas no restaurante. “São vinhos que não se bebem em mais lado nenhum, que não estão nas grandes superfícies.” No limite, aponta o presidente da ACIBEV, e de tão significativa nesta equação, “a restauração é tudo”. Entre 2020 e 2021, a queda “anda nos 10/12% nos vinhos certificados e nos 10/20% nos não certificados” (“o consumidor assume uma compra de confiança, o que é bom para as regiões”).
Com a pandemia, as pessoas passaram a ter mais tempo para fazer as suas compras. “Perdiam-se uns segundos no supermercado, gastam-se uns minutos de conversa na garrafeira e no online o tempo não tem limites”, anota Jorge Monteiro. “As pessoas reflectem, fazem compras conscientes e sustentadas, avaliam características.”
No caso particular da garrafeira Tio Pepe, os seus responsáveis apontam um crescimento global na ordem dos 50% e de 100% se as contas se focarem apenas no online. “O que vendemos foi assustador”, confessa à Fugas Luís Cândido, proprietário. Alicerçada num grande investimento em 2019 no site da empresa, a Tio Pepe duplicou as vendas online, transformando 2020 no “melhor ano de sempre”. “Batemos os recordes todos. Perdemos cerca de 300 mil euros de facturação no canal Horeca, mas compensámos esses valores em muito no online. E quando foram levantadas as limitações no acesso à restauração as […]






















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