A UPGALL (União de Produtores de Gado Lesados pelos Lobos) surgiu de forma espontânea após mais um ataque grave a animais na região Norte, no qual morreram 14 ovinos. O episódio, longe de ser isolado, revelou uma realidade que muitos criadores já vivem há anos: prejuízos sucessivos, frustração acumulada e total sensação de isolamento.
Perante este cenário, foi criado um grupo para unir esforços, partilhar informação e dar voz a quem está diariamente no terreno. Em poucos dias, centenas de produtores juntaram-se à iniciativa, demonstrando que o problema é real, generalizado e transversal a todo o setor agropecuário da região.
Atualmente, a UPGALL integra mais de 350 criadores de gado de toda a zona Norte do país. São pequenos e médios produtores, maioritariamente explorações familiares, que dependem diretamente da criação de ovinos, caprinos, equídeos e bovinos para garantir o sustento das suas famílias.
Fazem também parte do grupo membros de várias associações de raças autóctones do Norte, o que demonstra que não se trata de situações pontuais ou localizadas, mas de um problema que afeta diferentes espécies, diferentes explorações e diferentes territórios.
Estamos a falar de produtores que mantêm viva a agricultura tradicional, que preservam raças autóctones, que cuidam do território diariamente e que desempenham um papel essencial na prevenção de incêndios e na manutenção do equilíbrio rural.
O objetivo da UPGALL é claro: exigir medidas concretas que garantam a proteção das pessoas e dos seus animais.
Os criadores defendem:
- Revisão das políticas atuais;
- Criação de zonas onde a atividade agrícola seja claramente salvaguardada;
- Implementação de mecanismos de prevenção;
- Compensações justas e céleres quando os ataques ocorrem.
No entanto, os criadores sublinham que esta não é uma luta por indemnizações. Nenhum valor compensa anos de trabalho, dedicação, seleção genética e investimento num animal. O que pedem é poder exercer a sua atividade com segurança e tranquilidade.
Quem está no terreno sabe o que significa a presença constante de predadores junto às explorações: reforço permanente de vedações, vigilância contínua, recolhas antecipadas de animais, noites mal dormidas e um nível de stress constante. O trabalho duplica ou triplica, com impacto direto na qualidade de vida e na sustentabilidade económica das explorações.
Os produtores afirmam que não pode existir proteção absoluta da fauna selvagem acompanhada do abandono total de quem vive e trabalha no meio rural.
Desde a criação do grupo, a UPGALL tem vindo a recolher documentação detalhada sobre a situação:
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Imagens de ataques;
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Testemunhos de criadores;
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Registos de avistamentos de lobo;
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Autos oficiais levantados pelas entidades competentes;
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Comprovativos de indemnizações pagas.
Com base nessa informação foi elaborado um documento estruturado que reúne, de forma objetiva e fundamentada, os problemas enfrentados no terreno.
Paralelamente, foi lançada uma petição pública que já reúne centenas de assinaturas, demonstrando que esta preocupação ultrapassa os próprios criadores e é partilhada por comunidades rurais e pela sociedade em geral.
Têm ainda sido estabelecidos contactos com órgãos de comunicação social e entidades públicas para dar visibilidade à situação.
O que antes podia ser interpretado como ocorrências pontuais está hoje documentado como um problema estrutural e recorrente.
Segundo os relatos reunidos, os ataques deixaram de ocorrer de forma isolada e passaram a ser praticamente constantes. Registam-se ocorrências em diferentes concelhos do Norte do país, tanto em zonas de monte como em áreas agrícolas e próximas das explorações. Ao longo de um ano, acumulam-se centenas de animais mortos ou gravemente feridos.
Não se trata apenas de perdas financeiras. Muitos dos animais atingidos foram criados ao longo de anos, com trabalho de seleção genética e investimento continuado. Alguns pertencem a raças autóctones com elevado valor produtivo e reprodutivo. Quando um animal destes é perdido, desaparece também um património genético e um investimento de longo prazo.
Os processos de indemnização são considerados morosos e burocráticos. Envolvem perícias, deslocações e prazos prolongados. Em vários casos, os valores atribuídos não refletem o prejuízo real, sobretudo quando estão em causa animais reprodutores ou linhagens específicas.
Outro ponto apontado pelos criadores é a inexistência de um registo público, transparente e acessível onde todos os ataques estejam devidamente documentados com local, data e número de animais afetados. Consideram que essa transparência é essencial para avaliar a real dimensão do problema.
Um dos aspetos mais preocupantes é o efeito que esta situação está a ter sobre os jovens agricultores. Há produtores que ponderam abandonar a atividade por sentirem que não existem garantias suficientes de proteção.
O abandono da atividade agropecuária implica consequências mais amplas: desertificação do território, perda de atividade económica local, menor gestão da paisagem e maior vulnerabilidade do mundo rural.
A UPGALL reafirma que o objetivo não é criar conflito, mas sim encontrar soluções que permitam conciliar conservação da natureza com a viabilidade da atividade agrícola.
Os produtores defendem que proteger o mundo rural é também proteger o território, a economia local e o futuro das próximas gerações.
Fonte: UPGALL













