
A evolução tecnológica da nossa agricultura foi enorme e deixa pasmado qualquer visitante que venha da “cidade” com a ideia da agricultura primitiva do carro de bois e descubra os novos tractores, unifeeds ou sistemas de ordenha robotizada. Na cidade também passou a haver telemóveis, computadores ou micro-ondas, mas creio que, em proporção, a evolução tecnológica da agricultura foi superior à da sociedade envolvente, porque se partiu muito atrás. Conseguimos assim fazer mais e melhor com menos esforço físico e compensar (por vezes) com esse aumento de produção a perda de rendimento por unidade produzida.
Chegámos aqui a um primeiro paradoxo: O rendimento dos agricultores tem evoluído no sentido inverso da tecnologia agrícola. Temos hoje melhores tractores, produzimos melhor milho e melhor leite mas recebemos menos por esse leite e pagámos mais pelo gasóleo, adubos, rações e outros factores de produção.
Porque evoluímos tanto na tecnologia e tão pouco no rendimento? Talvez porque seja mais fácil ir ao Stand comprar um tractor do que investir na nossa capacidade pessoal de gestão, comunicação e participação associativa. Talvez porque investimos imenso (e com apoios) na tecnologia de produção e muito pouco na valorização do produto. Entregámos esse assunto aos dirigentes das cooperativas e administradores de indústrias, alguns pagos a peso de ouro mas sem que o produtor veja o resultado desse “investimento”. Investimos pouco ou quase nada na formação de dirigentes associativos e cooperativos. Todos os anos, por imposição legal, uma parte dos lucros das cooperativas é destinada à “reserva para formação cooperativa”. Que cursos se organizaram? Quem participou neles? A valorização dos nossos produtos e a economia nos factores de produção dependem do bom funcionamento das nossas organizações agrícolas e esse bom funcionamento depende dos dirigentes e demais associados, que também devem investir algum tempo para acompanhar o funcionamento das organizações que lhes pertencem, procurarem formação e, dentro do possível, disponibilizarem-se a participar na gestão e tomada de decisão nas suas/nossas organizações agrícolas. Evoluímos imenso na tecnologia de produção. Temos de fazer o mesmo na gestão pessoal e das nossas organizações.
Carlos Neves












Discussão sobre este post