
Errado. Quando o mar bate na rocha quem se lixa é o mexilhão. E a guerra dos gigantes do leite (da indústria e distribuição) é demasiado velha e conhecida mas não é exclusiva da Lactogal nem do Continente. Em Junho de 2011, foi notícia a suspensão de relações entre a empresa “Lacticínios das Marinhas” e o Pingo Doce.
A guerra também não é exclusiva do leite. Os produtores de arroz também ameaçaram apresentar queixa por venda abaixo do preço de custo. Terão avançado ou esperam para ver o que consegue o leite sozinho? Em Outubro de 2011 os suinicultores queixavam-se do “esmagamento de preços por parte da Distribuição e consequente falência da industria e da produção.” Já estará resolvido o problema? A Horpozim, associação de horticultores na Póvoa de Varzim, esteve connosco na manifestação de 7 de Janeiro. E um jovem horticultor escreveu-me ao fim desse dia: “Tive pena de não poder ir hoje (…) as grandes superfícies vêm com programas de marketing com tretas que apoiam a produção Nacional e na verdade fazem contratos de fornecimento com empresas Espanholas e Marroquinas até Maio e Junho quando já existem produtos hortícolas produzidos em Portugal (…) O que se está a verificar nos últimos anos é que quando nós em Portugal temos produção hortícola para corresponder as necessidades de mercado, os importadores e comerciantes continuam a importar na mesma baixando os preços nacionais”. E deu dois exemplos, que não cito por falta de espaço.
O problema nem é exclusivo de Portugal. Na semana passada, em Espanha, a UPA, União de Pequenos Agricultores, pediu à sua autoridade de concorrência que actuasse como a ASAE, porque existe muito leite à venda abaixo do custo de produção e transformação. Também em Espanha, a conselheira da agricultura de Leão exige ao novo ministro da agricultura que regule as margens, porque a alimentação não pode ser o colchão que absorve a baixa de vendas de outros produtos. E o parlamento europeu acaba de aprovar uma recomendação sobre o mesmo assunto.
“Primeiro levaram os judeus,
Mas não falei, por não ser judeu.
Depois, perseguiram os comunistas,
Nada disse então, por não ser comunista,
Em seguida, castigaram os sindicalistas
Decidi não falar, porque não sou sindicalista.
Mais tarde, foi a vez dos católicos,
Também me calei, por ser protestante.
Então, um dia, vieram buscar-me.
Mas, por essa altura, já não restava nenhuma voz,
Que, em meu nome, se fizesse ouvir”.( Martin Niemoller)
Repito o que já disse em Setembro de 2011: De que vale apelar à instalação de jovens agricultores se o preço do leite, carne, hortícolas, fruta ou vinho não cobrir os custos de produção? De que serve apoiar a concentração da produção se o rendimento não chegar aos produtores? Precisamos de uma repartição mais justa de margens entre produção, indústria e distribuição. Sem justiça não há paz. Sem paz não haverá desenvolvimento da agricultura e de Portugal.
Carlos Neves
Presidente da APROLEP



















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