A relação entre consumidores e produção alimentar, os desafios da regulamentação europeia e o papel da inovação na agricultura estiveram no centro dos debates que juntaram decisores políticos, especialistas, agricultores, investigadores e representantes da cadeia agroalimentar no II Congresso CropLife Portugal.
Sob o mote “Mitos Não Alimentam”, o encontro promoveu uma reflexão alargada sobre alguns dos principais desafios que marcam atualmente o sistema alimentar europeu, desfazendo mitos e aproximando-nos daquela que é a realidade nacional e europeia. A guiar um dia totalmente dedicado a debater os desafios agrícolas da próxima década, assentaram três eixos fundamentais:
• a perceção e crescente exigência dos consumidores;
• a garantia de alimentos acessíveis e seguros num quadro regulamentar exigente;
• e o futuro da agricultura e da sua capacidade produtiva no contexto das políticas europeias.
O desafio da perceção do consumidor
No painel de abertura deste encontro, Soraia Leite, representante da DECO Proteste, revelou, aquelas que, segundo o mais recente estudo feito pela DECO ao consumidor, são as suas principais preocupações quando falamos de alimentos:
• o preço e a origem. 7 em cada 10 portugueses defendem políticas agrícolas que promovam práticas que protejam o ambiente e a biodiversidade;
• 9 em cada 10 considera essencial que a produção assegure alimentos seguros e economicamente acessíveis;
• 60% defende que os agricultores deveriam ser melhor remunerados pelo seu trabalho;
• contudo, 39% afirmam ter dificuldades em suportar o aumento de preço do cabaz alimentar
Para Soraia Leite, os resultados demonstram um claro alinhamento dos consumidores com os valores de sustentabilidade do sistema alimentar, mas também uma expectativa de evolução das políticas públicas. Os dados mostram-nos que os consumidores esperam cada vez maior transparência e justiça na distribuição de apoios e políticas agrícolas que garantam simultaneamente alimentos acessíveis, segurança alimentar e proteção ambiental.
Literacia alimentar continua a ser um desafio
Mas se há consumidores que assumem uma clara dificuldade em pagar o cabaz alimentar, será possível assegurar a todos uma alimentação equilibrada, com menos dinheiro?
Foi a pergunta que abriu a primeira mesa-redonda da manhã, moderada por Luís Ribeiro, Jornalista e Comentador. Helena Real, secretária-geral da Associação Portuguesa de Nutrição, alertou para o facto de a literacia alimentar dos portugueses continuar a ser mais limitada do que se gostaria, que facilmente se observa na pouca clareza que existe junto do consumidor sobre o conceito de “sustentabilidade alimentar”. É comum dizer-se que comer de forma sustentável ou saudável é necessariamente mais caro, mas não é verdade. Comer bem não tem de ser mais caro, precisamos é de ajudar os consumidores a compreender o que significa produzir e comer de forma sustentável.
A especialista destacou ainda o impacto do desperdício alimentar, recordando que cerca de um terço dos alimentos comprados acabam por ser desperdiçados, um fator que também pesa no custo final da alimentação e que nem sempre é tido em conta na equação do consumidor.
Distância entre consumidores e realidade agrícola
O debate evidenciou ainda a crescente distância entre o mundo urbano e o mundo rural – que justifica a persistência de inúmeros mitos. Para Rui Batista, agricultor, existe ainda uma grande falta de compreensão pública sobre a realidade da produção agrícola; ressaltando ainda que apesar de vivermos sob um quadro regulamentar que nos torna um dos países mais seguros do mundo a produzir alimentos, o consumidor continua distante dessa realidade. É urgente apostar na comunicação sobre a forma como os alimentos são produzidos, encurtando esta distância e desfazendo mitos.
Opinião partilhada por Rui Almeida, responsável pelo projeto B-Rural, que sublinhou ainda que muitas das perceções do público sobre a agricultura são moldadas pela forma como o tema é retratado nos media, nas escolas e nas redes sociais, que contribuem para uma visão muitas vezes enviesada ou distorcida da realidade do setor. Destacando que projetos como o B-Rural ajudam a passar uma mensagem agregadora e esclarecedora acerca da realidade agrícola nacional.
Regulamentação europeia e competitividade agrícola em debate
Outro dos temas centrais do congresso, abordado no segundo painel – dedicado aos Desafios Regulamentares e Impacto na Produção Agrícola – foram as consequências da regulamentação europeia na competitividade da agricultura. Paulo Lourenço, da CropLife Portugal, alertou para a crescente pressão regulatória sobre a indústria e para a necessidade de encontrar um equilíbrio entre proteção ambiental e viabilidade produtiva. Tendo a DGAV, pela Sub-Diretora Ana Paula García, apresentado a proposta de simplificação administrativa da Comissão Europeia, o pacote OMNIBUS X, que visa acelerar a disponibilidade de tecnologia ao agricultor.
“Não se trata de ter mais ou menos regulação, mas sim melhor regulação. A agricultura precisa de um enquadramento que garanta proteção da saúde e do ambiente, mas assegure também previsibilidade e condições para a inovação.” Afirmou Paulo Lourenço, na conclusão do painel
Encontrar o ponto de equilíbrio
No encerramento da primeira parte do congresso, João Cardoso, Diretor Executivo da CropLife Portugal, destacou que o futuro da agricultura europeia dependerá da capacidade de equilibrar ambição regulatória, inovação tecnológica e viabilidade da produção agrícola.
«O futuro da agricultura europeia dependerá da nossa capacidade de garantir que os agricultores continuam a ter as ferramentas necessárias para produzir de forma sustentável, resiliente e competitiva”», concluiu o responsável.
Visão para o futuro da agricultura
Assunção Cristas, ex-Ministra da Agricultura e professora na Universidade Nova, fez as honras do último painel do dia, sintetizando os desafios do setor em três grandes eixos: sustentabilidade, segurança alimentar e inovação, sublinhando que garantir alimentos seguros e acessíveis continua a ser uma das maiores conquistas das sociedades modernas.
A antiga governante destacou ainda que a sustentabilidade deve ser entendida nas suas várias dimensões – ambiental, económica e social – e que o equilíbrio entre elas será determinante para assegurar um setor agrícola competitivo e capaz de responder às necessidades de uma população mundial em crescimento.
Chegados ao último painel de debate, moderado por João Paulo Sacadura, jornalista do Observador, e do qual fez parte Olivier de Matos, Diretor Geral da CropLife Europe, debateram-se os desafios estruturais para o futuro da agricultura, antevendo qual a mudança mais estrutural e decisiva que terá que acontecer na próxima década, para reescrever o futuro do setor agrícola.
Inovação e Valorização foram as palavras-chave. Olivier de Matos, destacou a importância de reduzir o desfasamento entre o ritmo de desenvolvimento
tecnológico e a sua adoção efetiva na agricultura; e em jeito de conclusão, todo o painel ressaltou a importância de valorizar o setor agrícola, reforçar a competitividade europeia e assegurar condições que permitam aos agricultores continuar a produzir num contexto de crescente exigência regulatória e pressão internacional.
Felisbela Torres de Campos, Presidente da CropLife Portugal, encerrou o II Congresso da Associação, relembrando que «incentivar a investigação e o desenvolvimento de nova soluções e travar a saída precoce das soluções actuais para a Proteção de Culturas na europa é fundamental», acrescentando ainda que «só assim se consegue acelerar a inovação tecnológica e promover uma transformação holística e sustentável da Agricultura, tornando-a mais resiliente e competitiva e garantindo a necessária segurança alimentar, a par de uma autonomia estratégica europeia».
Fonte: CropLife Portugal











