Com a pandemia, a vida delineada na capital inglesa deixou de fazer sentido para Cláudia e Ion. Deixaram carreiras para trás e decidiram regressar a Portimão para lançar um projecto que é tanto um negócio como uma filosofia de vida: na primeira quinta urbana de cogumelos do Algarve querem ser um exemplo de sustentabilidade e de economia circular.
Entre cafés, roupas, farmácias e lojas encerradas, junto àquela que já foi a rua de comércio mais icónica de Portimão, abriu recentemente “a primeira quinta urbana de cogumelos do Algarve”. Quem espreitar pelas janelas largas, pouco vai descobrir para já, mas na cave do espaço começa a nascer um mundo de cogumelos dos mais telúricos formatos e tons, entre ostras cor-de-rosa, amarelas ou pérola, fungos entroncados e espigas delicadas, e outros que, de tão parecidos, recebem o nome de “juba de leão”.
O objectivo de Cláudia Martins e Ion Volosciuc, o casal à frente da Gribbfarm, aberta ao público no início de Dezembro, era precisamente recuperar um edifício em meio urbano, “ou ocupar um espaço que estivesse vazio há muito tempo ou um pouco degradado”, e instalar uma produção de cogumelos, numa perspectiva de agricultura urbana, utilizando um método o mais sustentável possível, assente na economia circular e com o mínimo de desperdício, para um mercado de proximidade.
A serradura de onde brotam os cogumelos da Gribbfarm vem, por isso, de carpintarias da zona de Monchique, para aproveitar um excedente que, em muitos casos, “era queimado ou ficava ali a apodrecer”. Os sacos de plástico utilizados na produção são biodegradáveis. As caixas de entrega dos cogumelos são reutilizáveis (o cliente pode dar-lhes outro uso ou levar na encomenda seguinte) e, caso queira levar em viagem, são embrulhadas como nas “mercearias tradicionais”, em pacotes de papel pardo e fio. No final do ciclo de produção, o que fica após a colheita é um “fertilizante natural” que doam a quintas ou “até mesmo a clientes particulares que tenham um jardim ou uma horta”.
Segundo Ion, ainda que o universo dos cogumelos seja uma novidade para o casal, o processo de produção que estão a implementar no Algarve não é uma inovação, existindo “imensa gente a nível mundial” que já produz cogumelos utilizando métodos semelhantes. A diferença, defendem, está na adaptação de todo o ciclo à região do Algarve e às filosofias de sustentabilidade e economia circular. “Podíamos ter feito isto com pellets, a uma escala industrial, com uma linha de montagem, e de certeza que teríamos mais lucros e o processo seria mais fácil e automatizado, mas era muito mais desligado do ambiente, da comunidade e dos nossos valores.”
Revolta da pandemia
Um quadro branco (o mesmo que hoje encontramos na zona de produção, com diferentes variedades de cogumelos apontadas) e uma convicção: queriam deixar Londres para trás, onde viviam há seis anos, e abandonar as “carreiras estáveis” – ele gerente de restaurantes, ela optometrista e gerente de ópticas – para regressar a Portugal.
A decisão começou a germinar durante o primeiro período de confinamento. As vidas “muito aceleradas” do casal ficaram, de repente, suspensas em casa, com muito tempo para passar com o filho, iniciar uma pequena horta no quintal e aprofundar “todo um outro interesse de vida e maneira de estar diferente”. Ao mesmo tempo que continuavam a receber os salários por inteiro, viam como outros “eram completamente descartáveis”. “De uma equipa de 20, ficámos quatro, e éramos nós que tínhamos de fazer as conversas”, recorda Cláudia. “Vimos como éramos privilegiados, mas achávamos que não era correcto e foi um bocadinho a revolta ‘contra o sistema’”, acrescenta Ion.
Deixaram de se identificar com a “progressão de carreira completamente delineada” que tinham escolhido, com a vida no Reino Unido. Queriam que o filho tivesse “mais contacto com a natureza, com a praia, a floresta, o sol”. Decidiram que iriam voltar para Portimão, onde tinham vivido anteriormente e onde se conheceram – Cláudia é da Covilhã e Ion nasceu na Rússia, filho de pais moldavos. Daí a palavra “gribb”, cogumelo em russo, no nome da empresa.
No quadro branco, começaram a apontar hipóteses de negócio. Aulas de ioga (Cláudia é instrutora), aplicações móveis, “muita coisa”. Os cogumelos acabaram por “surgir do nada”, a partir de “um scroll no Instagram”, recordam. Cláudia já tomava suplementos de cogumelos, Ion já conhecia muitas das variedades no trabalho em restaurantes. “Tropeçaram” em informação sobre a inteligência daqueles organismos e sobre a sua produção. Viram o filme Fungos Fantásticos. Começaram a ler mais e mais. “O interesse acabou por se tornar uma paixão.” O plano ficou delineado em Abril de 2021. Regressaram em Junho. Os primeiros cogumelos foram colhidos em meados de Novembro.
Um mundo “fantástico”
O mundo dos cogumelos, organismos da família dos fungos (diferente da fauna e da flora), pode tornar-se “muito fantástico e entusiasmante” para quem se debruça um […]














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