A história e a ciência confirmam: há uma maior frequência e intensidade dos fenómenos climáticos extremos nos últimos 30 anos, com particular impacto no sul do país.
As secas são cíclicas, relativizou recentemente o ex-ministro da Agricultura. Uma afirmação verdadeira mas incompleta: esse ciclo está mais intenso e frequente. O Observatório das Secas, do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), na descrição que faz dos cenários de evolução climática para Portugal continental ao longo dos últimos 75 anos, regista 12 episódios de seca significativos, que frequentemente se estendem por mais de um ano: 1943/1946, 1965, 1976, 1980/1981, 1991/1992, 1994/1995, 1998/1999, 2004/2006, 2008/2009, 2011/2012, 2014/2015 e 2016/2017. O que permite concluir que há uma maior incidência dos fenómenos de seca a partir de meados dos anos 90 do século passado.
Também o relatório da Federação Nacional de Rega (Fenareg) – “Contributo para uma Estratégia Nacional para o Regadio”, publicado em 2019 – confirma que as situações de seca “têm sido mais frequentes e mais intensas nos últimos 30 anos”. Esta leitura é partilhada pelo Ministério da Agricultura no seu programa: “Regadio 20/30 – Levantamento do Potencial de Desenvolvimento do Regadio de Iniciativa Pública no Horizonte de uma Década”, que esteve em consulta pública até 21 de Janeiro.
De referir ainda que, nas duas últimas décadas do século XX, se observou “uma intensificação da frequência de secas, em particular nos meses de Fevereiro a Abril”. As regiões a sul do Tejo “são as mais vulneráveis e as que têm sido mais afectadas”, destaca o relatório da Fenareg.
Alguns dos episódios destacam-se anda pela sua duração e o número de meses consecutivos em situação de seca severa e extrema. As mais graves e mais longas ocorreram em 1943-46, 1980-81, 1990-92, 2004-06, 2011/2012 e 2015/2018. A seca de 2004-06 foi a de maior extensão territorial (100% do território afectado) e a mais intensa (tendo em conta os meses consecutivos em seca severa e extrema).
Relativizar a seca
Instado a comentar as consequências de mais um ciclo de seca severa e extrema que percorre o país de norte a sul, o ex-ministro da Agricultura, Luís Capoulas Santos, numa entrevista ao Jornal de Negócios e Antena 1, no dia 12 de Fevereiro, procurou “relativizar” o problema, afirmando que “há registos históricos de secas prolongadas desde o século XV”.
E reforça o seu argumento afirmando que as observações meteorológicas comprovam que “costuma haver períodos de alguns anos de seca a cada dez, 13 anos”. Mas a realidade observada no século XXI contraria a interpretação do ex-ministro da Agricultura: a sua frequência e amplitude têm aumentado nos últimos anos, fenómeno que tem sido acrescido a uma diminuição tendencial das afluências às diversas bacias hidrográficas nacionais, como de resto se observa na seca em curso.
Para Capoulas Santos, a incidência das secas “não é um fenómeno novo.” Tem confrontado os portugueses e os agricultores “desde sempre” e lembrou que quando esteve no Governo criou “apoios para equipamentos de transporte de água, para reservatórios que armazenem água, para furos que permitam fazer captações onde é possível”. Acontece que um dos dramas que afecta sobretudo o território onde persiste a agricultura de sequeiro e a pecuária […]





















