À entrada do Verão, informou a Agência Portuguesa do Ambiente (APA), há menos 82,37 milhões de metros cúbicos de água para gastar do que existia no ano passado na mesma altura do ano, ou seja, menos 18,5%. Os agricultores, integrados no perímetro de rega da barragem da Bravura, estão proibidos de regar. Os poucos recursos hídricos disponíveis são para consumo doméstico. Na faixa do território mais próximo do litoral, a escassez ainda não é sentida. Os empreendimentos turísticos ainda regam relvados e planta-se arroz em Lagoa. Mas quem sobe à serra do Caldeirão vê outro panorama. Os sobreiros, com sede e doentes, morrem de pé.
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Os agricultores servidos pela barragem do Funcho/Arade (Silves, Lagoa e Portimão) estão com cortes de 50% no abastecimento das culturas não permanentes, onde se incluiu os campos de arroz situados nos limites do concelho de Lagoa com Silves. O presidente da Associação de Regantes do Arade, João Garcia, questionado pelo PÚBLICO, justificou: “Os arrozais [subsidiados pela Política Agrícola Comum (PAC)] são uma cultura antiga mas tem vindo a diminuir, estão a ser regados cerca de 100 ha”, disse. Os citrinos, acrescentou, é que representam cerca de 98% da área total de rega, que soma 2500 hectares”.
No concelho vizinho, Lagos, é onde se verifica o caso mais preocupante. Os agricultores, abastecidos pela barragem da Bravura, estão proibidos de regar. A albufeira, que tem apenas 14% do seu volume, só está a ser utilizada para consumo doméstico. “Estamos a entregar às Águas do Algarve [empresa de distribuição intermunicipal] 110 litros por segundo”, disse o presidente da Associação de Regantes, António Marreiros, manifestando preocupação. “Quem tem furos ou poços, ainda consegue dar água às laranjeiras para que estas sobrevivam, os outros nada podem fazer”.
Nesta zona do sotavento algarvio, recorda o dirigente associativo, também se plantava arroz nos sapais. O uso do solo, entretanto, alterou-se.
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Face a estes cenários, o presidente da empresa Águas do Algarve, António Eusébio defende a necessidade de “acelerar” os projectos de dessalinização e o transvase do Guadiana – a partir do Pomarão – para reforçar o abastecimento na zona litoral.
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Stress hídrico obriga sobreiro a migrar
Saindo do litoral e subindo à serra, desaparecem as ilusões e a seca surge em toda a sua crueza. As tentativas de reflorestação da serra algarvia não estão a ter os resultados esperados por causa do stress hídrico. “Só 10% das árvores sobrevivem”, diz a presidente da Associação de Associação de Produtores Florestais da Serra do Caldeirão, Valentina Tavares.
A médica, depois de reformada, regressou à terra, com a esperança de que poderia recuperar o montado que herdara dos pais e acrescentar valor ao território com novas plantações. “Tristeza e alguma desilusão” são as palavras que encontra para definir a forma como estão a ser executados os projectos de Adaptação às Alterações Climáticas. “Plantar árvores é fácil, difícil é criar as condições para que as novas plantações sobrevivam”. Os sobreiros, diz, “precisam de ser ajudados nos primeiros anos de vida”. A “ajuda”, explica, significa fazer rega localizada para que a planta, saída de um viveiro, possa adaptar-se às condições adversas de um solo pobre e ressequido.
Valentina Tavares e o marido, José Tavares de Sousa, engenheiro electrotécnico, aposentado, decidiram há 12 anos olhar para a floresta como se fosse um reencontro com a natureza: “Uns jogam golfe, outros plantam sobreiros”, diz a antiga directora regional de saúde pública, referindo-se à dedicação do marido às terras. A experiência que levou a cabo na serra do Caldeirão, prossegue, acabou por se estender à Ria de Aveiro, onde nasceu. Na zona centro do país, refere, “sobreiros plantados, há dez anos, estão com três metros de altura mas no Barranco do Velho (Algarve) não têm mais de 80 centímetros a um metro”. Logo, conclui, […]





















